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‘Alexandra Kim: Filha da Sibéria’ marca K-Debate durante Festival da Cultura Coreana

Graphic novel foi fio condutor da mesa “Ativistas da independência coreana: vertentes, dilemas e consequências”

No último sábado (15) aconteceu a 3ª edição do K-Debate, promovida pelo Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB) como parte da programação do 19º Festival da Cultura Coreana. O evento trouxe importantes reflexões para dentro do Complexo Cultural Oswald de Andrade, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. O painel “Ativistas da Independência Coreana: Vertentes, Dilemas e Consequências” abordou a complexa história do movimento de libertação coreano, tendo como fio condutor o lançamento no Brasil da graphic novel Alexandra Kim: Filha da Sibéria (시베리아의 딸, 김알렉산드라), da aclamada autora sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim (김금숙).

Publicado originalmente em 2020,a obra acompanha a trajetória da ativista Alexandra Kim (1885 – 1918), considerada a “primeira comunista coreana”. Nascida em uma comunidade da diáspora coreana na Sibéria, ela fez parte do movimento que culminou na Revolução Russa, colaborando na aproximação entre os revolucionários bolcheviques e os trabalhadores coreanos.

O quadrinho está sendo lançado no Brasil pela Pipoca & Nanquim e é uma adaptação da biografia literária escrita por Jung Cheol-Hoon (정철훈). A trama percorre desde a infância da ativista até sua morte, em 1918, aos 33 anos. Assim com outros trabalhos de Keum Suk Gendry-Kim, a personagem-título é retratada através de seus relacionamentos, amizades e outros aspectos de sua vida que vão além da política.

O encontro do K-Debate reuniu um time multidisciplinar de debatedores: o professor de literatura e cultura russa Bruno Barreto Gomide; a tradutora, pesquisadora e criadora do curso de Língua e Literatura Coreana da USP, Yun Jung Im; a artista visual e quadrinista coreano-brasileira Ing Lee; e o pesquisador em artes e histórias em quadrinhos Bruno Freire Pereira. Juntos, eles abordaram as geopolíticas coreana e russa no início do século XX e os recursos estéticos de Keum Suk Gendry-Kim como ferramenta de preservação da memória.

Geopolítica e revolução: as pontes entre a Rússia e a Coreia

Abrindo as falas, os professores Bruno Barreto Gomide e Yun Jung Im contextualizaram o momento histórico de Rússia e Coreia do Sul, importantes para a graphic novel. Gomide destacou como a historiografia ocidental costuma isolar os estudos sobre a Rússia em sua relação com a Europa, negligenciando a profunda conexão do império czarista e soviético com o Leste Asiático. Ele resgatou a virada histórica trazida pela Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), na qual a surpreendente derrota russa impactou as relações do país com a Ásia como um todo.

Esse turbilhão geopolítico, somado às Revoluções Russas de 1905 e 1917 e à subsequente Guerra Civil Russa na Sibéria, serviu de palco para a vida de Alexandra Kim, que tornou-se a primeira coreana a aderir ao movimento comunista internacional, lutando pela libertação do povo coreano.

A professora Yun Jung Im aprofundou o panorama histórico sobre a resistência da Coreia contra a ocupação colonial japonesa (1910-1945), indo além de Alexandra Kim. Ela lembrou o impacto do Movimento 1º de Março de 1919, quando mais de 2 milhões de pessoas (cerca de 10% da população coreana da época) saíram às ruas em marchas políticas, resultando na morte de mais de 7.500 manifestantes e na prisão (e tortura) de 46 mil.

Yun Jung Im enfatizou como o movimento libertário foi atravessado por rachas ideológicos e disputas por apoio internacional entre três grandes correntes: a ala nacionalista (republicanos), que buscavam articulação diplomática e apoio financeiro de potências ocidentais; a ala socialista, vertente da qual participaram Yi Tong-hwi (fundador do Primeiro Partido Socialista dos Coreanos, em 1918) e a própria Alexandra Kim; e a ala anarquista.

Um dos casos mais emblemáticos dessa complexa memória histórica trazidos por Yun foi o do General Hong Beom-do. Comandante Geral do Exército da Independência, Hong aliou-se aos soviéticos em busca de recursos, sofreu a deportação forçada imposta por Stalin aos coreanos do Extremo Oriente russo para o Cazaquistão em 1937 e faleceu no exílio em 1943.

Segundo a pesquisadora e tradutora, a repatriação dos restos mortais de Hong Beom-do em 2021, além de recentes controvérsias políticas na Coreia do Sul em torno de seu busto em frente ao Pavilhão Chungmu, do pátio da Academia Militar do Exército Coreano, demonstram como as divisões ideológicas do século passado ainda geram intensos debates no país.

A obra de Keum Suk Gendry-Kim e o quadrinho como testemunho gráfico e gesto de resistência

Já Ing Lee e Bruno Freire Pereira ficaram responsáveis por apresentar uma visão detalhada da trajetória da autora Keum Suk Gendry-Kim e uma análise estética de suas obras. Ing explicou que, após anos vivendo na França, Keum Suk buscou reconectar-se com suas raízes por meio dos manhwas (quadrinhos coreanos), desenvolvendo uma obra marcada pelo olhar documental e pela presença marcante dos elementos da natureza.

Ing Lee repassou o impacto global das principais obras da autora publicadas no Brasil:
Grama (풀) (2020, Pipoca & Nanquim): Graphic novel baseada nos relatos reais de Ok-sun Lee, sobrevivente do sistema de escravidão sexual promovido pelo Exército Imperial Japonês (as chamadas “mulheres de conforto”). A obra conquistou prêmios internacionais e entrou nas listas de melhores HQs do The New York Times e The Guardian.
A Espera (기다림) (2021, Pipoca & Nanquim): Uma obra tocante sobre as famílias separadas pela Guerra da Coreia, inspirada na história da própria mãe da autora.
Cães (개) (2023, Pipoca & Nanquim): Obra que aborda o afeto pelos animais, ao mesmo tempo em que denuncia os maus-tratos e o consumo de carne canina na Coreia do Sul, prática proibida apenas em 2024.

Ao traçar um elo com o mercado brasileiro, a autora de João Pé-de-Feijão (2026, VR Editora) comparou o trabalho de Keum Suk Gendry-Kim ao do quadrinista brasileiro Marcelo d’Salete em Angola Janga: Uma história de Palmares (2017, Veneta), destacando como ambos utilizam a narrativa gráfica para resgatar memórias sufocadas de sujeitos marginalizados.

Encerrando as intervenções, Bruno Freire Pereira analisou o desafio técnico de adaptar para a linguagem dos quadrinhos a biografia romanceada de Alexandra Kim, originalmente escrita por Jung Cheol-Hoon.

Pereira enquadrou a obra dentro do conceito de testemunho gráfico, tradição que abriga clássicos mundiais dos quadrinhos como Maus (2005, Quadrinhos na Cia), de Art Spiegelman, e Persépolis (2007, Quadrinhos na Cia), de Marjane Satrapi. Segundo o pesquisador, essas obras vão além do entretenimento comercial: “’Maus’, ‘Persépolis’ e, agora, ‘Alexandra Kim’ assumem um compromisso ético ao usar a HQ como instrumento de crítica histórica e transferência de memória entre gerações para combater o apagamento público”, afirmou.

Bruno resgatou a semelhança do estilo da artista com a xilogravura, o que combina com Alexandra Kim: Filha da Sibéria até em termos históricos, visto que é um tipo de arte utilizada por ativistas. Ele relembrou ainda uma entrevista da autora para a Korean Literature Now, onde ela descreve o gesto de desenhar como algo próximo do canto do pansori (gênero tradicional coreano de canção narrativa):

“Você põe peso na ponta do pincel e solta, golpeia, recua … como água fluindo, o traço desliza, se aglomera, pausa e ricocheteia. Colocando a energia do corpo e do espírito na ponta do pincel, desenho como se estivesse respirando, dançando na página, às vezes de forma brusca, às vezes suavemente – como se estivesse cantando pansori.”
Kem Suk Gendry-Kim.

Ao fim, o debate mostrou que resgatar figuras como Alexandra Kim por meio dos quadrinhos não é apenas um exercício de saudosismo, mas uma ferramenta vital para reinterpretar as contradições do presente e garantir que a luta pela liberdade continue viva nas novas gerações.

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Sobre o Festival da Cultura Coreana

O Festival da Cultura Coreana é realizado anualmente pela Associação Brasileira dos Coreanos (ABC) e reúne uma ampla programação dedicada à divulgação da cultura coreana, promovendo o intercâmbio cultural entre Brasil e Coreia por meio de apresentações artísticas, gastronomia, exposições, oficinas, palestras e outras atividades.

O Sarangbang também esteve presente na 2ª Feira Cultural Bomre-dong, Munhwa-ro, que contou com estandes de arte, artesanato, literatura e moda focados na cultura coreana.

Veja:

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Sarangbang Brasil

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