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Resenha: “Break Room” e a versatilidade de Miye Lee além do quentinho no coração

por Denise Nobre

Se você acompanha o Sarangbang Podcast, já sabe que a ficção de cura é parte importante do grande boom da literatura coreana nos últimos anos, mas e quando uma das maiores expoentes desse gênero decide nos tirar da zona de conforto? Break Room (Editora Record, 2026), o novo lançamento de Miye Lee, chega com a tradução primorosa de Núbia Tropéia (nossa parceira de longa data no podcast) para provar que a autora de A Grande Loja de Sonhos tem uma faceta criativa muito mais ácida e instigante.

Da Samsung aos best-sellers

A trajetória de Miye Lee já é um roteiro por si só. Ela deixou um cargo na Samsung para apostar tudo em um projeto de financiamento coletivo que se tornaria o best-seller do ano na Coreia do Sul em 2020. Se em sua estreia o foco era o conforto absoluto, em Break Room ela nos entrega um mix de sentimentos. É um livro curto (126 páginas), mas que carrega uma densidade psicológica que nos faz questionar: quem somos nós quando ninguém (ou todo mundo) está olhando?

O Reality Show dos “odiados”

A premissa é genial: o livro é narrado em primeira pessoa por um dos participantes de um reality show chamado Break Room. O programa nasceu de um documentário que filmava a copa de uma empresa, revelando que aquele espaço “tranquilo” de pausa era, na verdade, um campo de batalha de microagressões e comportamentos irritantes. O produtor seleciona oito pessoas indicadas por seus próprios colegas como “os mais odiados da equipe”. Entre eles, temos o nosso protagonista, que recebe o codinome Gelo — por ter o hábito nada amigável de usar as forminhas de gelo do trabalho para congelar café e refrigerante. A dinâmica é um jogo de detetive: eles moram juntos por uma semana e precisam realizar missões na copa para ganhar pistas e descobrir quem é o impostor (alguém que não foi indicado por ninguém).

O jogo psicológico: espelhos e distorções

O que começa como uma busca pelo impostor logo se transforma em uma jornada de autodescoberta dolorosa. O protagonista pode escolher usar suas pistas para investigar os oponentes ou… descobrir o que seus colegas de trabalho realmente disseram sobre ele em entrevistas secretas. É aqui que o livro brilha. Como diz a citação da página 67: 

“Apenas torci para que não fosse sobre um lado meu do qual eu nunca havia me dado conta.” 

O livro toca na ferida da alteridade. É muito fácil julgar o colega que “rouba” sachês de café solúvel Maxim quando se sente insignificante, mas é difícil encarar a nossa própria arrogância. Miye Lee nos lembra que: 

“Nunca senti vontade de conhecer alguém de quem não gostava. Acho que é sempre assim. Detestar uma pessoa é fácil, o difícil é tentar conhecê-la de verdade.” (p. 74)

Break Room é, em última análise, sobre a digestão das nossas emoções ruins, por exemplo a arrogância de nos acharmos melhores quando, na verdade, todos temos defeitos ou podemos ser mal interpretados. A autora revela, já nas notas de introdução, que nos colocarmos no lugar do outro talvez seja a melhor forma de atenuar o ódio que inevitavelmente sentiremos até nas situações mais banais do cotidiano, como interagir com os colegas durante uma pausa rápida no horário de trabalho. 

Se você busca uma leitura que entretém enquanto cutuca suas certezas, dê uma chance ao Gelo e seus companheiros de copa. Você nunca mais vai olhar para os outros da mesma forma!

Por que você deve ler?

• Reflexão sobre o “Eu”: O livro nos faz pensar se, caso fôssemos indicados para esse reality, saberíamos o porquê. Se você sente que “todo lugar que vai tem cheiro de problema”, talvez seja hora de checar se não é você que está “pisando na bola” (ou no café alheio). 

• Crítica social: A autora aborda a etiqueta tácita dos ambientes de trabalho (verdadeiros microcosmos do mundo) e como a edição de um reality (ou da nossa própria memória e pré-julgamentos) cria vilões e heróis de forma superficial. 

• Ritmo ágil: A leitura é rápida, intrigante e o final traz uma catarse necessária sobre aceitar nossas imperfeições em vez de fugir delas.

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