Autora de “Flores de Fogo” debate o feminismo coreano em encontro exclusivo do Clube Teoria Feminista Ontem e Hoje
por Denise Nobre
Aconteceu no último sábado (11) um evento histórico para os estudos de gênero e cultura coreana na América Latina. Pela primeira vez, a renomada jornalista e autora sul-coreana Hawon Jung participou de um bate-papo com o público latino-americano, em um encontro organizado pelo Clube Teoria Feminista Ontem e Hoje.
O evento, realizado de forma remota, contou com a mediação de Suzana Veiga, organizadora do clube, e a interpretação consecutiva de Isabella Laurito. Os inscritos puderam enviar perguntas previamente, estabelecendo um diálogo profundo sobre os desafios das mulheres na Coreia do Sul contemporânea em paralelo com a as lutas femininas no Brasil e no mundo.
Suzana contou com entusiasmo ao Sarangbang como conheceu a obra Flores de Fogo da autora e a trajetória até a realização deste evento:
“Eu conheci a obra de Hawon em 2023, pouco tempo depois de seu lançamento, e, como feminista e pesquisadora do feminismo na Coreia do Sul, senti que precisávamos desse livro no Brasil. Pouco depois de eu falar sobre ele no Instagram, Mariana Coimbra da Editora Cassandra me perguntou se eu acreditava que haveria interesse pela obra por aqui. Eu disse que sim, com certeza, já que estávamos consumindo quase tudo que vinha da Coreia do Sul, impulsionadas pela Hallyu. Em seguida, Mariana adquiriu os direitos do livro, realizou a tradução e me convidou para escrever o posfácio”. A organizadora revelou ainda que mantém contato com a autora e se sentiu à vontade para fazer o convite para o bate-papo no clube, com o intuito de tornar a obra mais popular no país.
Um dos pontos mais impactantes do bate-papo foi a revelação de Jung sobre a escolha do idioma. Publicado originalmente em inglês em 2023, o livro ainda não possui edição na Coreia do Sul — e a autora confirmou que a decisão de não escrever em sua língua nativa foi, em parte, estratégica e protetiva.
Jung explicou que a palavra “feminismo” tornou-se um termo marginalizado na Coreia mesmo antes da pressão contra o Ministério da Igualdade de Gênero e da Família sob o governo de Yoon Seok-yeol. A autora descreveu um cenário onde feministas são rotuladas como “raivosas que arruínam o país”, sofrendo assédio constante, perda de empregos, entre outras ameaças e violências.
“Escrever em uma língua não nativa foi uma forma de me proteger e proteger minha família. Mulheres que escrevem abertamente sobre isso em coreano são hostilizadas constantemente”, desabafou a autora, que revelou consultar regularmente uma advogada feminista para se resguardar de possíveis represálias legais e ataques de ódio.
Além disso, ela pontuou que alguns leitores coreanos consideram as informações do livro “básicas” para o contexto local, o que diminui o interesse comercial das editoras domésticas, embora o conteúdo seja vital para o público estrangeiro compreender a complexidade do cenário atual.
A autora traçou um paralelo geracional emocionante ao explicar que as filhas de hoje não desejam repetir a vida de sacrifício de suas mães, enquanto estas as apoiam plenamente por não quererem que as jovens passem pelas mesmas dores, um ponto que fez o público se emocionar e recordar imediatamente a obra Kim Ji-young, Nascida em 1982 (Cho Nam-joo, 2022). Em contrapartida, muitos homens jovens ainda buscam esposas que sigam o modelo de suas mães para manter o padrão de vida de seus pais, gerando um descompasso de expectativas que alimenta a atual “guerra dos sexos” no país, cenário intensificado por promessas políticas de apoio aos homens sob o pretexto de uma suposta discriminação reversa durante o governo anterior..
Apesar das críticas ao governo atual de Lee Jae-myung — que ela revela ser conhecido como um equilibrista que tenta não ofender nem as feministas, nem os jovens conservadores —, Hawon Jung demonstrou otimismo em relação à nova Ministra da Igualdade de Gênero e da Família, Won Min-kyong.
A ministra, uma advogada famosa, tem focado na prevenção de abusos domésticos e aumentar a eficácia das punições, pressionando a polícia para lidar seriamente com crimes de violência contra a mulher.
Além disso, a autora relembrou acontecimentos recentes como o papel fundamental das jovens fãs de cultura pop no ativismo político. Ela mencionou a “Revolução do Lightstick”, onde o poder de organização dos fandoms foi direcionado para protestos e para o movimento de impeachment após a tentativa de golpe em dezembro de 2024, mostrando que a força das mulheres coreanas é resiliente, vibrante e imparável.
Sobre a autora e a obra
Hawon Jung é uma jornalista veterana que cobriu a Coreia do Sul por mais de uma década, incluindo o nascimento do movimento #MeToo no país. Sua obra, Flores de Fogo, publicada no Brasil pela Editora Cassandra, é um relato contundente sobre a história moderna do feminismo, desde as aristocratas do século XIX às “garotas das fábricas” dos anos 1970, até as mobilizações que estão sacudindo as estruturas patriarcais da sociedade coreana, como os movimentos “Escape the Corset” e o radical “4B”. Para quem deseja se aprofundar na obra, Flores de Fogo está disponível no nosso link.
