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OLHA-ME, NARRA-ME: Uma perspectiva de “Pelos olhos de Sisun”, de Chung Serang

por Suzana Veiga

“Pode-se contar uma história porque antes houve um ator no cenário do mundo.”
Adriana Cavarero

O trecho citado na epígrafe deste texto, da filósofa italiana Adriana Cavarero, está em seu livro Olha-me, narra-me: filosofia da narração, mas poderia muito bem ter sido escrito pela personagem principal de Pelos olhos de Sisun, de Chung Serang, publicado no Brasil pela editora Planeta, com tradução de Guilherme Miranda.

O livro narra, por diversos pontos de vista, a história da artista, escritora e ativista feminista Shim Sisun, uma mulher fictícia que viveu na Coreia entre a primeira metade do século XX e a primeira do século seguinte.

Na narrativa, por meio do ponto de vista de múltiplos personagens, todos familiares de Sisun, como filhos, netos, genros e noras, acompanhamos a organização de uma viagem familiar ao Havaí para que a família celebre um jesa diferente e original em homenagem à matriarca, falecida dez anos antes, e que, inclusive, era contrária ao rito tradicional.

O jesa (coreano: 제사) é uma cerimônia comumente praticada na Coreia e funciona como um memorial aos ancestrais. Os rituais geralmente são realizados no aniversário da morte do ancestral e envolvem uma série de preparações, normalmente com todo o trabalho a cargo das mulheres e a cerimônia conduzida por homens.

É significativo que a história gire em torno da ressignificação desse ritual, mantendo, ainda assim, seu núcleo central de homenagem e memória de uma ancestral,  neste caso, uma matriarca, já que o livro se propõe, como fio condutor, a contribuir para que a história recente da Coreia, com seus atores, suas dores e delícias, seja recontada pelos “olhos” de uma mulher. Em determinado momento do livro Sisun afirma: “Vivi por aqueles que morreram antes de mim. Não desisti enquanto passava de uma poça de luto a outra, pois eu era o arquivo dos mortos.” (p. 194) Ser ‘arquivo dos mortos’ não é apenas lembrar, mas carregar, organizar e dar forma ao passado, uma tarefa historicamente atribuída às mulheres, ainda que raramente reconhecida como tal.”

Assim, acompanhamos a viagem da família de Shim Sisun ao Havaí e vamos conhecendo a história de cada um deles, bem como o entrelaçamento dessas histórias com a da matriarca: seus amores, suas dores, suas contradições, suas forças e vulnerabilidades, que a fizeram alguém tão extraordinária.

A narrativa de Chung Serang utiliza múltiplos recursos para nos fazer construir a imagem da artista; é como se fôssemos montando um quebra-cabeça que, ao final, forma a imagem dessa mulher genial e profundamente humana, que desempenhou tantos papéis ao longo da vida. Ao mesmo tempo, esses recursos utilizados nos lembram esse “arquivo de memórias” deixado pela própria Sisun. Assim, as peças desse quebra-cabeça nos aparecem por meio de entrevistas para jornais e TV, trechos de livros que ela escreveu e outros múltiplos relatos deixados em vida, dispostos no início de cada capítulo e dos próprios relatos de seus parentes.

Quando comecei a ler o livro, me peguei pensando na vida e obra de Na Hye-sok. Para quem não conhece, Hye-sok foi uma mulher coreana, nascida no final do século XIX, que esteve entre as primeiras a se declarar feminista na península. Ela fundou, junto com outras duas companheiras, a revista Sinyeoja (“Nova Mulher”), que contestava o patriarcado confucionista e propunha novas possibilidades de ser mulher a partir de um pensamento feminista e internacionalista.

Hye-sok foi também uma artista visual prolífica, tendo estudado pintura ocidental no Japão. Durante suas viagens, inclusive à efervescente Paris do início do século XX, produziu grande parte de sua obra pictórica, tornando-se uma das primeiras artistas mulheres na Coreia a realizar uma exposição individual.

A artista também escreveu diversos artigos e livros com reflexões sobre casamento, divórcio e maternidade, o que a levou a um ostracismo que destruiu sua vida pública. Em um trecho do livro, a relação entre a morte precoce de artistas e a intolerância da sociedade fica evidente:

“Sabia que a Coreia do Sul tem o índice de suicídio mais alto do mundo? Para artistas coreanos, esse número deve ser ainda mais alto. Mestres, amigos, aprendizes… perdi alguém quase todo ano. A sensibilidade deles era o que os tornava belos, sei disso. Algumas verdades só podem ser captadas por aqueles com nervos mais aflorados, e questionar a rigidez do mundo pode até se assemelhar ao ato de suicídio. Em todo caso, vidas demais se perderam. Também tive dias em que queria desistir de tudo, dias em que não conseguia sentir apego a nada. Sempre que isso acontece, digo a mim mesma que devo, de alguma forma, a qualquer custo, sair dessa rampa íngreme em direção à morte. Desfazer o nó. Não sei se endireitar os próprios pensamentos distorcidos é a forma de se tornar um bom artista, mas tenho certeza de que é a maneira de ser um artista vivo.” (p. 21)

Ler o livro de Chung Serang me fez pensar que uma das inspirações por trás da figura de Shim Sisun pode ser Na Hye-sok  e no que teria acontecido caso sua obra e suas ideias tivessem sido mais bem recebidas pela sociedade, como as de Sisun foram, apesar dos embates.

A escritora estadunidense Suzette Haden Elgin costumava afirmar que a ficção é o espaço para soltarmos a imaginação e especularmos mundos possíveis. Talvez a obra de Serang esteja apontando para como seria enriquecedor um mundo em que mulheres como Na Hye-sok não apenas tivessem sobrevivido, mas também tido espaço para o debate, para erguerem a voz, para apontarem onde a sociedade precisa mudar e pudessem sem serem completamente rechaçadas e ostracizadas como Na Hye Sok, assim como Sisun conseguiu fazer.

Dessa forma, Sisun aparece quase como uma reescritura possível de Na Hye-sok,  não a que a história permitiu, mas a que a ficção ousa imaginar.

Apesar de temas como violência, morte e luto serem tão presentes, a obra possui uma narrativa extremamente cativante e leve, o que permite que nos envolvamos com os personagens e seus dilemas e que, dessa forma, sejamos apresentados, com mais naturalidade, às camadas de violência misógina, xenofobia e dominação imperialista que a Coreia atravessou em sua história recente.Sisun foi uma mulher cujo corpo-território carregou as marcas da história contemporânea da Coreia, mas, na literatura de Chung Serang, ela recusa o destino do apagamento. Ao deslocar o jesa, esse ritual que organiza a memória dentro de uma lógica patriarcal para um espaço outro, físico e simbólico, a obra não apenas homenageia uma ancestral, mas reinscreve quem pode ser lembrado e como. Aqui, a narração deixa de ser apenas um registro para se tornar aquilo que Adriana Cavarero propõe: um gesto de revelação, no qual uma vida se torna inteligível na medida em que é contada por outros, no entrelaçamento de vozes que fazem emergir o “quem” por trás dos fatos. Ao final, Pelos olhos de Sisun nos sugere que narrar é, antes de tudo, um ato político e de vida, mesmo após a morte.

Sobre Suzana Veiga

Doutora em História pela UFPE, com estágio sanduíche na Universidade de Évora. Com pós-doutorado em filosofia pela UFSM. Pesquisadora e professora do ensino superior desde 2013. Desenvolve, desde 2009, pesquisa em história das mulheres e Teoria Feminista. Fundou em 2021 o Clube Teoria Feminista Ontem e Hoje. Criou e é editora da Revista GINETOPIA (2024).
Pesquisa História das mulheres e do Movimento Feminista na Coreia desde 2019 e atualmente desenvolve estágio pós-doutoral nessa área na Universidade de Pernambuco.

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