Unindo pessoas, livros e Coreia. 

Sinta-se em casa!

“Porque eu Odeio a Coreia”: Em sessão gratuita, diretor e produtor falam sobre filme

Longa-metragem é baseado em um livro inédito no Brasil, escrito por Chang Kang-myoung

O cineasta Jang Kun-jae (장건재), um dos principais nomes do cinema independente sul-coreano contemporâneo, participou de uma sessão gratuita de seu filme Porque eu Odeio a Coreia (한국이 싫어서) nesta última sexta (15), em São Paulo. A exibição foi realizada no CCSP e contou também com bate-papo com o diretor ao lado do produtor Youn Hee-young (윤희영). A conversa foi mediada por Anna Park e interpretada por Gabriela Yoon.

O filme é baseado no livro de mesmo nome, escrito por Chang Kang-myoung (장강명). A trama acompanha Gye-na, uma mulher perto de chegar aos 30 anos de idade, com um emprego estável e um namorado comprometido — mas que se sente incerta e ansiosa sobre a vida. Então, ela decide abandonar tudo e viajar à Nova Zelândia, na esperança de um recomeço.

O Sarangbang esteve presente no evento, leia abaixo como foi:

Origem do Filme e Processo Criativo

Jang Kun-jae iniciou a conversa falando sobre seu primeiro contato com o livro original, lançado em 2015. O cineasta estava no aeroporto, a caminho de Paris, e leu a obra inteira durante o voo. Ao desembarcar, pensou “esse vai ser meu próximo filme”. No longa-metragem, Jang, que é diretor e roteirista da produção, aborda questões como pertencimento e dilemas de pessoas mais jovens, que estão questionando seus papéis na sociedade coreana. Segundo ele, a narrativa do romance o atraiu justamente por retratar seu país de origem de forma extremamente consumida e cansada.

Como reflexo deste cansaço sul-coreano, Jang explicou que não seria possível trazer todos os principais tópicos da época, como a popularização do termo “Hell Joseon” (헬조선), em 2015, entre os jovens para descrever o país como uma sociedade sem esperança e infernal. Ou ainda, um ano antes, em 2014, quando a tragédia da balsa Sewol vitimou estudantes de ensino médio.

Soma-se a isto os altos índices de suicídio na Coreia do Sul e o assassinato, em maio de 2016, perto da estação de metrô Gangnam, em Seul, de uma jovem de 23 anos por um homem desconhecido — ele confessou ter desejado matar qualquer mulher ao acaso. Jang Kun-jae explicou que buscou retratar esses contextos por meio da vivência da protagonista Gye-na, interpretada por Ko A-sung (Expresso do Amanhã e O Hospedeiro). “Esse foi o processo de criação”, afirmou. “Todo país tem seus problemas e a Coreia também tem seu lado bom, mas a intenção foi mostrar essa outra faceta.”

O Significado do Título

Youn Hee-young demonstrou curiosidade sobre como o público interpreta o título original. Para ele, a frase indica o preenchimento do que vem depois; na estrutura do idioma coreano, soaria como “Porque eu odeio a Coreia, eu fiz [X]”. Segundo o produtor, o diálogo nos minutos finais do longa, entre Gye-na e Kyung-yoon (Park Seung-hyun), mostra que talvez a busca da protagonista não seja puramente pelo sucesso, “mas pelo simples desejo de morar em um lugar onde tenha mais sol e seja menos frio.”

Capa do livro 한국이 싫어서, de Chang Kang-myoung.

Estrutura Narrativa, Tempo e Locação

Jang Kun-jae: A estrutura básica da transição e temporalidade, veio do livro. A grande diferença é que, na obra original, a protagonista consegue a cidadania no país de destino. No filme, o diretor preferiu não trazer esse final fechado; ele quis seguir pelo caminho de alguém que está sempre em busca de algo, em constante transição de acordo com seus questionamentos, sendo conduzida por eles a algum lugar.

Youn Hee-young: No filme, há um passado mais distante e, depois, outro momento do passado. A partir de uma grande mudança, a narrativa se transforma no presente. O tempo cronológico foi muito debatido durante a produção do roteiro, nas gravações e na edição. No meu entendimento, o presente — o momento atual — é construído por um empilhamento de passados, mas não necessariamente de forma cronológica.

Perguntas do Público e Debate

Público: Você já pensou em abordar o tema das mulheres coreanas que querem sair do país por causa do patriarcado, já que o debate feminista está em alta por lá?
Jang Kun-jae: Quando mencionei o homicídio na estação de Gangnam, acredito que, naquela época, a ira em relação à vulnerabilidade feminina passou de um certo ponto. Foi um movimento que coincidiu com o impacto do #MeToo vindo dos EUA, gerando um despertar na Coreia, que passou a adquirir uma sensibilidade maior sobre as questões de gênero. Como em qualquer movimento, surgiram também correntes contrárias. No meio desse contexto, sendo um homem, fiz o filme com muita atenção ao tema. Embora eu não possa representar essa dor diretamente, tentei ao menos não demonstrar preconceitos e sem também transformar o filme em uma peça de propaganda. A protagonista é simplesmente uma pessoa que quer sair da Coreia. Acredito que foi um momento de equalização em um campo que estava muito desigual, mas houve um preço a pagar por esse aprendizado.

Após a resposta, para quem quisesse se aprofundar no tema, o diretor e roteirista indicou o livro Kim Jiyoung, Nascida em 1982, best-seller de Cho Nam-Joo. O mesmo foi adaptado para os cinemas em 2019, sob o mesmo título, com direção de Kim Do-young.

Público: O cenário poderia ser trocado por outro país?
Jang Kun-jae: No livro, o país de destino é a Austrália. A mudança para a Nova Zelândia ocorreu porque o produtor Youn Hee-young morou muito tempo lá e fez pesquisas de campo na região. Os coreanos na Nova Zelândia pareciam mais misteriosos e eram pessoas que talvez tivessem passado por mais dificuldades dentro da Coreia; esse foi um dos motivos para alterar a locação. Além disso, muitos coreanos não gostam do frio e, fazendo um paralelo com a história do pinguim Pablo do livro infantil que aparece no filme, eu quis trazer esse movimento de migração em direção ao sul.

Ao fim do bate-papo e da exibição do filme, o público estava muito impactado com a história de Porque eu Odeio a Coreia — e curioso para ler o livro que deu origem à produção. O romance de Chang Kang-myoung, porém, segue inédito no Brasil e sem previsão de lançamento por uma editora.

Foto de Sarangbang Brasil

Sarangbang Brasil

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  • equipe

    Conheça quem está por trás do Sarangbang

    Apoio

  • Posts relacionados

    “Guerreiras do K-pop” lançará versão em quadrinhos

    Obra chega em novembro nos EUA, mas não tem data de lançamento no Brasil

    “Pavana”: Filme da Netflix divulga novo trailer

    Longa-metragem é baseado em livro de Park Min-gyu