A autora coreano-brasileira participou de mesa com Vivi Melancia e o deputado estadual Guilherme Cortez
por Danis Mizokami
A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo abrigou no espaço Papo de Mercado, na última sexta-feira (11), a mesa “Arte, autoria e algoritmos: os desafios da inteligência artificial para quem vive da criação”. O debate teve mediação de Mariana Viana, do site Fora do Plástico, e reuniu a quadrinista coreano-brasileira Ing Lee (잉리), a artista Vivi Melancia e o deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL-SP) para discutir os impactos éticos, econômicos e culturais da IA no trabalho artístico.
Em suas falas, Ing Lee destacou que a inteligência artificial tem prejudicado diretamente os artistas, inserindo-se em um setor que já enfrenta barreiras elitistas, machistas e racistas. A quadrinista questionou a lógica de encarar a criatividade como algo substituível para trocar o trabalho humano pelas máquinas, apontando que a sociedade atual exige produtividade constante e valoriza apenas resultados imediatos, atropelando o processo de criação. “Precisamos ser produtivos o tempo inteiro?”, questionou. Segundo a autora, “as pessoas mais afetadas agora são as que estão tentando entrar no mercado, porque não estão dando mais espaço para o aprendizado”, afirmou.
“Depois da bomba atômica, foram estabelecidas diversas regras para estabelecer um controle”, afirmou o deputado estadual Guilherme Cortez. “O mesmo não é feito com a IA, sendo que o potencial destrutivo é o mesmo. O principal desafio que temos hoje é: nós estamos desenvolvendo a tecnologia de mudar a humanidade, acabar com trabalhos, e não há regulamentação para limites artísticos, éticos, ambientais.”
Ao analisar o discurso predominante sobre o avanço tecnológico, Ing Lee criticou a narrativa de “inevitabilidade” da inteligência artificial, afirmando que essa abordagem mascara os danos predatórios dessa tecnologia no presente. A quadrinista afirmou: “É importante não cairmos nesse papo de que não tem mais jeito [o avanço da IA]. Existe esperança no futuro.”
Sobre a conscientização do público, a quadrinista defendeu a necessidade de um trabalho educativo e estabeleceu uma distinção importante na forma como a ferramenta é empregada: pontuou que existe uma diferença clara entre o uso recreativo feito por pessoas leigas e a decisão de candidatos políticos e/ou empresas de utilizar inteligência artificial em vez de contratar artistas profissionais.
Vivi Melancia disse que “gosto de falar [sobre esse tema] enquanto professora e líder de comunidade”, destacando a falta de aulas de artes plásticas após 5º ano nas escolas. Segundo ela, são nestas aulas que as pessoas podem entender as imagens de forma crítica e compreenderem seu valor.
Ing Lee completou ao se colocar como contra a tese de que a inteligência artificial tornaria a arte mais acessível, argumentando que a verdadeira democratização do acesso ocorre por meio da educação. Para ela, pular etapas do processo criativo via algoritmos reflete uma falta de imaginação e integra um projeto que esvazia o caráter educativo e questionador da arte.
Ao fim, a coreano-brasileira relembrou a webcomic The Demons in AI’s Data, que ela lançou em parceria com o jornalista científico Carl Smith. A obra, premiada e disponibilizada gratuitamente (leia aqui), questiona a inteligência artificial e seus impactos reais em todas as partes de nossas vidas.