Autora participou de conversa com o brasileiro Roger Mello
por Danis Mizokami
No domingo (13), último dia da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o espaço Salão de Ideias esteve lotado para acompanhar a mesa “Silêncio que grita: a imagem como narrativa”. O encontro reuniu a aclamada autora e ilustradora sul-coreana Suzy Lee e o escritor e dramaturgo brasileiro Roger Mello, sob mediação do jornalista Bruno Molinero.
Emocionada com o público que encheu o auditório, Suzy Lee celebrou a universalidade do livro-imagem, destacando que a obra visual é capaz de gerar empatia e conexão profunda mesmo na ausência de palavras. Com formação em artes plásticas e pintura, a autora explicou que seu desejo sempre foi desafiar o poder das letras, utilizando a linguagem visual para contar histórias que apenas as imagens conseguem transmitir.
A dobradiça do livro e a Trilogia da Margem
Um dos pontos altos do bate-papo foi a reflexão sobre a materialidade do livro físico. Suzy Lee relembrou sua pesquisa em book art realizada em Londres, na qual passou a encarar a dobra central da página dupla (o centro do livro) como uma fronteira física e poética entre a realidade e a imaginação.
Essa investigação estrutural deu origem à sua famosa trilogia formada por:
• Onda (Companhia das Letrinhas, 2017): narrativa em que a criança e o mar estão inicialmente separados pela dobra da página, até que a onda invade o espaço da menina, conectando os dois universos.
• Sombra (Companhia das Letrinhas, 2018): livro com formato de abertura diferenciado, dividindo a realidade na parte superior e a imaginação na parte inferior.
• Espelho (Companhia das Letrinhas, 2021): obra em que o centro do livro marca o limite entre o mundo real e o reflexo imaginado.
A autora comemorou o fato de os três títulos terem sido lançados no Brasil pela mesma editora e expressou seu carinho especial pelo público brasileiro.
Desmistificando o “espaço em branco” e a identidade coreana
Ao comentar sobre a descentralização do eixo eurocêntrico na literatura infantil, Suzy Lee defendeu que não é necessário recorrer a elementos folclóricos ou tradicionais para expressar a identidade de seu país. “Acho que não preciso ser tradicional para falar do meu país”, afirmou.
A ilustradora também explicou do uso abundante do espaço em branco em suas obras. Enquanto algumas crianças, segundo ela (rindo enquanto compartilhava), interpretam a ausência de texto ou de fundo como “preguiça”, Lee ressaltou que o vazio é um convite ativo para que as crianças preencham a narrativa com sua própria imaginação. Em Onda, por exemplo, a transição gradual do preto e branco para a entrada do azul simboliza o amadurecimento e a transformação da personagem. “Se eu escrevesse verbalmente essa história, ficaria sem graça”, afirmou. “Então, eu estava pensando em trazer esses simbolismos para o leitor se enxergar na história. Isto, para mim, se aproxima da cultura coreana. Acho que é algo tanto universal quanto que se expressa bem na cultura coreana.”
Ao fim do debate, fica claro que, para Suzy Lee, a força do livro ilustrado reside na capacidade de provocar “cem interpretações diferentes em cem leitores distintos”, pois sentimentos universais nascem de memórias e verdades pessoais do artista. A autora enfatiza que não existe uma resposta certa ao interpretar suas obras. O valor real está no processo afetuoso de adultos e crianças imaginarem e construírem a narrativa juntos.