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Bienal do Livro de São Paulo: Monge Han fala sobre inspirações e vivência amarela, saiba como foi

Quadrinista coreano-brasileiro esteve em duas programações e na Alameda dos Artistas

A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo foi palco de importantes reflexões sobre representatividade, processo criativo e literatura em quadrinhos. Entre os destaques da programação, o autor e ilustrador coreano-brasileiro Monge Han — criador de Vozes Amarelas (HarperCollins, 2023) e a série Daruma — esteve no centro de dois painéis que debateram a construção da identidade amarela no Brasil e os bastidores da criação artística.

O despertar da consciência racial e as inspirações

Na quinta-feira (10), o quadrinisa participou do bate-papo “Raízes amarelas, identidades plurais”, com os autores Fábio Yabu e Giu Yukari Murakami no Espaço Podcast da Bienal. Durante a conversa, Han revelou que sua formação como leitor e artista passou diretamente pelo trabalho de Yabu: o quadrinho Combo Rangers foi a primeira obra brasileira que leu na infância, fora da Turma da Mônica, onde teve contato com um personagem amarelo brasileiro pela primeira vez.

Ao relembrar sua trajetória, Monge Han contou ter nascido em Manaus e crescido no Rio de Janeiro, sendo a única pessoa amarela de sua escola. Ele explicou que cresceu em um ambiente sem referências e que o despertar de sua consciência racial ocorreu apenas aos 25 anos, durante um intercâmbio na Holanda, ao perceber que não era visto como brasileiro, mas sim como um “intercambista da Ásia”. Ao retornar ao Brasil, passou a enxergar suas criações sob a lente da identidade amarela e latina-brasileira.

Em outro momento, o autor criticou o mito da “minoria modelo”, ressaltando como esse estereótipo é utilizado pela branquitude para colocar minorias racializadas em oposição, justificando o racismo contra ambas. Han também resgatou a história de sua família: seus avós emigraram para o Brasil após a Guerra das Coreias com poucos recursos e trabalharam como feirantes em São Paulo. Ele relembrou que, embora seu avô falasse coreano, mandarim e japonês, era subestimado no cotidiano brasileiro por não dominar o português fluente.

O autor destacou ainda o contraste entre o estranhamento sofrido pela cultura coreana nos anos 1990 e a atual Hallyu, que trouxe maior visibilidade, mas também problemáticas como a fetichização. O bate-papo “Raízes amarelas, identidades plurais” está disponível completo no YouTube, clique aqui e assista.

Processo criativo caótico, ‘Daruma’ e a relação com a cidade

Já no dia seguinte, na sexta-feira (11), Monge Han participou da mesa “Histórias para ler e ver”, realizada no Espaço Skeelo. A conversa teve mediação de Seh Marques e participação dos quadrinistas Paulo Moreira e Aline Zouvi. O foco desta vez voltou-se para os bastidores das histórias, as inspirações de cada artista e sua linguagem visual. Questionado logo de início sobre suas inspirações nos quadrinhos, Monge Han citou A Chegada, de Shaun Tan (2011, Edições SM), como uma obra experimental, sem texto e rica em imagens que o ajudou a construir a percepção sobre imigração e consciência racial.

Ao detalhar a origem de sua HQ ficcional Daruma: Perseverança (Pitaya, 2024) e Daruma: Identidade (Pitaya, 2025), o autor contou que a ideia surgiu no período em que trabalhava como tatuador, ao desenhar flashes de figuras asiáticas adaptadas ao contexto latino-americano. “Foi nessa época que fiz o desenho de uma menina com máscara de Daruma”, contou. “Até tatuei uma pessoa com essa figura, e eu sempre gostei dela. Conforme os anos foram passando, fui pensando numa história. Até que, na CCXP23, a HarperCollins Brasil me abordou para publicar as minhas obras. Quando eles compraram a ideia [de Daruma], comecei a desenvolver o roteiro de fato.”

Ele descreveu seu método de trabalho como um “processo caótico”, no qual monta um esqueleto dos acontecimentos e preenche o roteiro e os diálogos ao longo das sketches, alcançando as melhores ideias perto do final da produção em alguns casos.

Monge Han ressaltou que a escolha de São Paulo, mais especificamente o bairro da Liberdade, como cenário principal para Daruma foi consciente. Segundo ele, a ideia foi criar referências urbanas e culturais para que leitores amarelos-brasileiros pudessem se reconhecerem. “Desde que publiquei ‘Daruma’, pessoas chamadas Yumi ou Sayuri vieram falar comigo sobre o quadrinho. É uma forma de mostrar que nós também podemos estar em histórias incríveis”, afirmou.

Ao refletir sobre sua escolha profissional, Monge Han comentou ter abraçado a ilustração sabendo dos desafios da carreira artística no Brasil em vez de seguir profissões tradicionais. O terceiro volume de Daruma, segundo o autor, será lançado em 2027, ainda sem data.

Durante a Bienal do Livro, o público pôde encontrá-lo também na Alameda dos Artistas. Veja fotos:

Fotos: Bienal do Livro de São Paulo.

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