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Bienal do Livro de São Paulo: Saiba como foi a passagem de Lee Hong no evento

Escritora participou de duas mesas no evento

A escritora sul-coreana Lee Hong (이홍) marcou presença na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo para promover o lançamento de A Dama de Gangnam (나를 사랑했던 사람들) no Brasil pela VR Editora. A autora relembrou a conexão que já sentia com o Brasil desde a infância (por ter lido o clássico Meu Pé de Laranja Lima) e falou sobre literatura coreana, as pressões sociais impostas às mulheres na Coreia do Sul e a “desromantização” dos estereótipos do país.

Além dos k-dramas e do k-pop: a literatura na onda coreana

No Palco Arena Cultural, na sexta-feira (11), a primeira mesa com a autora contou com a mediação de Dani Mazur e participação da jornalista Érica Imenes. Durante o painel, a autora relatou que começou a escrever aos nove anos como uma forma de libertação e por uma revolta contra os padrões culturais de sua época. Ao comentar sobre A Dama de Gangnam, romance escrito entre 2008 e 2010 — “antes do estouro global de ‘Gangnam Style’ [de PSY] e do k-pop”, lembrou —, Lee Hong destacou que usou o famoso bairro para relembrar sua história e tratar da busca desenfreada pelo sucesso e dos grupos fechados de elite.

A cronologia não linear da narrativa foi um dos pontos centrais da discussão. Lee Hong explicou que inverteu a ordem dos eventos justamente para investigar a origem dos problemas apresentados. Segundo ela, as dinâmicas do bairro se deram por conta de uma expansão industrial da região nos anos 1980. Érica Imenes ressaltou que a estrutura não linear da obra aproxima o leitor da protagonista Oh Mina e ajuda a “desromantizar” Gangnam, tratando o bairro como um personagem vivo e não apenas como cenário.

A autora revelou ainda ter se inspirado em conceitos do livro Social Intelligence, que caracteriza figuras de poder como maquiavélicas, sociopatas ou narcisistas. Lee Hong compartilhou ainda que as dificuldades de sua própria rotina em determinada época serviram de inspiração para o livro. A escritora relatou que acumulava obrigações domésticas, familiares e profissionais dormindo apenas de 3 a 4 horas por dia até sofrer um acidente de trânsito (retratado em um capítulo do livro, inclusive). “Eu questionei se essa vida que eu levava não era apenas fruto do desejo de minha família ou um papel designado pela sociedade para as mulheres coreanas”, contou. “Esse conflito e carência de definição que haviam dentro de mim serviram de força motora para o surgimento do livro.”

A autora concluiu a mesa enfatizando que a literatura permite acessar as fissuras sentimentais e emoções profundas do povo coreano de forma muito mais detalhada do que as produções audiovisuais do país.

‘A Dama de Gangnam’ e a literatura coreana

Em sua segunda participação na Bienal, realizada no Espaço Skeelo, Lee Hong esteve acompanhada pela ilustradora (e capista de A dama de Gangnam) Ing Lee, em painel mediado por Yara Hwang (da AIGO Livros). Na ocasião, a escritora continuou a falar sobre a história de Gangnam, explicando que a região era uma área rural às margens de Seul antes de o governo transferir para lá os principais colégios, transformando o local no maior símbolo de ambição e ascensão social do país. Segundo ela, a protagonista Oh Miná foi concebida justamente para encarnar esse desejo e confrontar a visão confucionista e patriarcal que reduz as mulheres a papéis passivos ou de vítimas.

Durante o painel, Ing Lee detalhou o processo de criação da capa brasileira, que envolveu pesquisas no Google Maps e a inclusão de easter eggs, como um chaveiro em referência às Olimpíadas de 1988 e a um capítulo do livro.

Questionada se alteraria algo do livro, a autora afirmou: “Eu escrevi o livro entre 2008 e 2010, levando em conta os problemas da sociedade coreana na época. Passado tantos anos, nada mudou. As crianças na Coreia estudam até madrugada, o conflito de classes, o julgamento da aparência, essas coisas da época não melhoraram… Só pioraram desde então.”

Antes do fim, Lee Hong reiterou sua alegria com o carinho dos leitores brasileiros e defendeu que os livros oferecem um olhar crítico indispensável para compreender a realidade por trás da onda cultural coreana.

A autora participou de uma sessão de autógrafos no evento.

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Fora da Bienal: Encontro na AIGO Livros

Fora da estrutura da Bienal, Lee Hong participou de um evento na livraria Aigo Livros, no dia seguinte (sábado, 12). O bate-papo da vez foi mediado por Juliana Gomes (do clube do livro Leia Mulheres) e com a presença novamente de Ing Lee.

No encontro, a autora aprofundou a crítica ao “mito da mulher de sucesso”, explicando que a industrialização sul-coreana trouxe mais oportunidades às mulheres sem retirar suas atribuições tradicionais, gerando uma sobrecarga exaustiva e um estado de privação de sono constante. Lee Hong relatou que exigia-se das mulheres um esforço triplicado em seis áreas (beleza, escolaridade, economia, informação, família e criação dos filhos), rotina que ela própria viveu intensamente até seu acidente automobilístico, citado acima, a fazer questionar as convenções impostas.

As participantes brasileiras pontuaram diversas semelhanças com a realidade do Brasil, citando a sobrecarga com o trabalho doméstico, a pressão estética e a ascensão do conservadorismo. Além dos temas sociais, Lee Hong relembrou sua atuação como agente na internacionalização da literatura coreana e defendeu a tradução como uma “segunda criação”. Ela disse: “A criação neste caso é sentir e transmitir. Quando o autor e tradutor têm processos e temas muito próximos, é possível fazer uma ótima tradução e transmitir essa sintonia.“

Após o encontro, a autora participou de uma nova leva de autógrafos.

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